Vítor Serrão 12 de Setembro de 2026, 0:10
A vila e serra de Sintra formam um monumento ímpar onde prevalece a qualidade suprema da paisagem. De há muito que, após um árduo processo de trabalhos interdisciplinares, a UNESCO classificou justamente esse monumento natural, em 1995, como Paisagem Cultural, reconhecendo a sua categoria de sublimidade.
Tendo sido parte integrante desse processo, enquanto técnico da autarquia, vou acompanhando desde então com crescentes apreensões as ameaças que pairam sobre este pulmão paisagístico que, como área protegida, constitui espaço ímpar de identidade nacional e, mais ainda, é um bem civilizacional único e inalienável.
Ora o processo de revisão do Plano Director Municipal de Sintra em curso vem abrir campo a uma situação muito perigosa para a autenticidade do Parque Natural de Sintra-Cascais, fazendo esquecer mesmo os compromissos internacionais assumidos pelo Estado. Ficam abertos instrumentos legais que autorizam a construção tanto na área do Parque como na Zona de Protecção definida aquando da candidatura. Áreas como a Praia das Maçãs-Azenhas do Mar, Praia Grande-Praia Pequena e Azóia-Cabo da Roca passam a ser vistas como tendo «dimensão crítica adequada a 'Fazer Cidade'»...
Mas que conceito de «Fazer Cidade» é este, senão alibi para que a densificação e o aumento do rátio de compacidade (e, mesmo a verticalização construtiva) tenham estrada escancarada ? Que se lixem, pois, a identidade territorial, o pulmão paisagístico e o espírito da candidatura que a UNESCO viabilizou ! Eu pergunto: vale tudo em Política ?
Sou do tempo em que, como técnico de Cultura na C.M. Sintra, os valores da preservação do Património Histórico, Cultural e Natural eram bandeira comum a todos os partidos políticos representados na gestão autárquica. O desejável «desenvolvimento sustentado» não colidia, antes se complementava, com o reconhecimento e preservação de bens insubstituíveis como os que se congregam na Área de Paisagem Protegida e suas afluências.
Esta é uma luta de todos os portugueses: impedir que o novo PDM seja porta aberta para toda a sorte de atropelos imobiliários na área protegida de Sintra/Cascais. Há bens que não se alienam: são valores civilizacionais e, na sua unicidade e essência aurática, a todos pertencem.
Estamos mesmo em tempo de petições públicas. Quando as tutelas esquecem os seus compromissos e a consciência do país cultural e patrimonial falha assim tanto, que mais resta fazer senão apelar à força da cidadania ?
A petição (da responsabilidade da associação Finis Terrae) que agora corre, por tudo o que diz, precisa muito de todos vós !
Vítor Serrão
Historiador de Arte
Professor Catedrático Emérito
Homem de Causas






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